Filosofia

A simplicidade é complexa

A simplicidade é complexa

*Este texto é uma tradução livre de um post do blog do Shihan Arnaud Cousergue 

Alguém disse uma vez: “O que se conquista facilmente, não dura. O que dura, não se conquista facilmente”, esta é a definição exata do que foi a aula que tive hoje com sensei Senō.
Durante toda a aula, nós fizemos apenas duas técnicas, aplicando um conhecimento profundo sobre mecânica corporal. Joseph, um nidan francês e eu ficamos perdidos nas primeiras tentativas. Sensei Senō, como outros dai shihan japoneses, tem um toque mágico no que se refere a mecânica corporal e para replicar os movimentos dele, exige muitas repetições. Frequentemente me sinto incapaz de reproduzir o seu taijutsu, mas quando consigo, mesmo que parcialmente certo, é um benefício enorme para meu treino.

Hoje em dia, eu não treino de modo tão perfeito, sutil e eficiente. Já estive perto de fazer, mas não era o bastante. As técnicas de Senō sempre parecem fáceis, até você tentar fazê-las. Há poucos anos atrás, eu perguntei a ele onde conseguiu tamanha precisão, ele me disse: “por três anos, eu treinei todos os ângulos possíveis, para cada chave”.

“O que se conquista facilmente, não dura. O que dura, não se conquista facilmente”. A excelência envolve repetições e falhas, onde nada está dado. Tudo é um resultado de trabalho duro, e uma vez que você consiga o resultado, ele irá durar. Tente se lembrar o quão difícil foi para aprender a nadar ou andar de bicicleta quando era criança. Você sabe o valor de nadar ou andar de bicicleta hoje em dia.

Quanto mais difícil for para conseguir, mais profundamente será arraigado.

Sensei Senō reiterou durante a aula, três pontos principais: distância ideal, correto trabalho de pés e eixo completo do corpo. Todos estes pontos estão ligados entre si, mas antes de conectá-los, primeiro deve-se estudar cada um em separado e em profundidade.
Distância ideal é o espaço entre você e a maior quantidade possível de ataques do adversário. Copiar as defesas, chutes e chaves não é o bastante, você deve posicionar seu corpo corretamente em cada etapa. Treinar adequadamente demanda movimentos lentos.

Como sempre, na Bujinkan, trabalho com os pés é o elemento mais importante de uma técnica. Quando você observa o trabalho de pés dos dai shihan japoneses, descobrirá que cada um deles tem sua maneira própria de posicionar o corpo. Todos se movem de maneira diferente, porém alcançam o mesmo resultado. Noguchi sensei se movimenta mais como kosshi jutsu, Nagato sensei está mais para koppō jutsu e Senō sensei está mais para taihen jutsu.

O último ponto, e Senō sensei insistiu muito nisso, é mover o oponente movimentando o corpo como um todo, através do quadril e dos pés e não somente com as mãos. Segurar o adversário é uma consequência de um movimento corporal correto, não o oposto. No último mês de abril, lembro-me como ele nos ensinou a tirar o equilíbrio de uke apenas forçando-o a inclinar o corpo para frente, ao invés de usar força através das mãos.

“É complexo fazer algo simples”

Durante a turma de hoje, eu sofri com o que pareciam ser técnicas relativamente simples, me fez lembrar do que Kary Mullis, prêmio Nobel de química, disse uma vez: “É complexo fazer algo simples”. Pedi a sensei Senō para fazer a técnica algumas vezes no meu colega de treino e em mim; eu não fui capaz de repetir nada do que ele mostrava, mesmo quando eu tive a chance de praticar ou quando via ele mostrando a técnica na minha cara. Sensei Senō é como aqueles mágicos de rua. Você pode até observar os seus movimentos; mas nunca saberá o que aconteceu.

“O que se conquista facilmente, não dura. O que dura, não se conquista facilmente” é um bom resumo do que foi essa aula. Mesmo eu estando próximo a sensei Senō  enquanto mostrava, eu não conseguia fazer as técnica do jeito que ele fez. Porém, tenho certeza que todo meu taijutsu melhorou hoje com os pequenos movimentos que eu consegui absorver. Estranho é ver o quão pouca gente vai às aulas dele para encarar suas próprias limitações.
Afinal, encarar seus medos não é a essência do mutō dori?

 

Link para o texto original: https://kumablog.org/2017/07/22/simplicity-is-complex/

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