Filosofia

As Virtudes do Bambu: As raízes, os galhos e o crescimento contínuo

jardim japonês com bambus em primeiro plano

As raízes, os galhos e o crescimento contínuo

根 / 根源

*Texto escrito pelo buyu Ícaro, a partir de reflexões de todos os alunos no momento cultural do dojo Aparecida.

Crescimento paciente

A maneira como o bambu cresce é uma de suas características mais curiosas. Primeiramente, embora algumas espécies de bambu possam alcançar mais de 30 metros de altura, é difícil notar qualquer diferença visual durante seus primeiros anos de vida. Alguns levam até quatro anos sem que demonstrem mudança aparente. O crescimento do bambu, por consequência, parece ser extremamente lento. De fato, haverá pouca ou mesmo nenhuma alteração em sua altura a princípio. Durante esse tempo de aparente inatividade, porém, um trabalho interno toma parte: as raízes do bambu estão sendo formadas e fortalecidas.

O bambu possui um sistema complexo de raízes, sendo este o outro grande fator que compõe sua qualidade da resistência flexível. Ao invés de se preocupar com um crescimento vistoso, que logo seria vislumbrado por todos, o bambu toma como prioridade a consolidação de seus alicerces. Suas raízes são vastas e fortemente arraigadas à terra, enredando-se também com as raízes de outros vegetais próximos.



Cultivar as raízes

No cotidiano, é comum que nos deparemos frequentemente com a necessidade de obter resultados perceptíveis e ostensíveis o mais rápido possível, seja em função das exigências de nossas ocupações, seja por questões de autoestima ou realização pessoal. Por conta de tais circunstâncias, é possível que acabemos nos esquecendo de buscar e compreender quais são os valores, motivações, inspirações e propósitos fundamentais que guiam nossas ações (ikigai).

É necessário paciência para que não negligenciemos os fundamentos antes de continuarmos a crescer. Na jornada do crescimento, a importância primordial das raízes, daquilo que é a base, é por vezes subestimada em detrimento do resultado futuro, de algo que está além ou é considerado mais “avançado”.  Em suma, na pressa de atingirmos os resultados finais, deixamos de perceber o valor crucial do percurso e do porquê de o estamos trilhando.

 

Os princípios nas artes marciais

Na prática das artes marciais, as “raízes” são as responsáveis por dar forma e sentido às técnicas, movimentos, posturas e aplicações. Sem essa base torna-se impossível alcançar proficiência plena, seja em sentido ou em eficácia, naquilo que se faz. Na vida em geral, as raízes são responsáveis por dar significado às nossas realidades e experiências.  Elas são o princípio do caminho que provê clareza na direção que seguimos.  Por isso, aquele que não cultiva ou esquece-se de suas raízes eventualmente se depara com a sensação de estar perdido. O bambu mais flexível também não seria capaz de permanecer por muito tempo de pé com a passagem do vento caso não houvesse pacientemente cultivado suas raízes.

Se entendermos 道 (dō, caminho) como um rio, é possível considerar a raiz [根源] (kongen) como sua nascente. Fornecendo a tranquilidade de que não nos desviaremos do caminho mesmo enquanto nos curvamos humildemente às adversidades, as raízes constituem uma das grandes lições do bambu, bem como um dos segredos do seu crescimento.

 


Referências:

Lewis, Daphne. Farming Bamboo. 31, 2007. Lulu Press, 31 de Outubro de 2007.

Whittaker, Paul. Hardy Bamboos: Taming the Dragon. Timber Press, 1 de Março de 2005.

Furuya, Kensho. KODO: Ancient Ways. Black Belt Communications, 1 de Abril de 1996.

Garr Reynolds. Be like the bamboo: 7 lessons from the Japanese forest. Disponível em: http://www.presentationzen.com/presentationzen/2010/07/be-like-the-bamboo-trees-lessons-from-the-japanese-forest.html.

 


 

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