Filosofia

As virtudes do bambu: humildade

foto bambuzal vista baixo

As virtudes do bambu: humildade

謙虛

*Texto escrito pelo buyu Ícaro, a partir de reflexões de todos os alunos no momento cultural do dojo Aparecida.

 

Humildade [ 謙虛 ], transcrito para o alfabeto romano como kenkyo, é um importante conceito para a cultura asiática em geral, e figura dentro da Bujinkan como um dos dezessete preceitos do “Caminho do Coração Benevolente” (jihi no kokoro). É também uma concepção comumente atribuída ao bambu no Japão.

Um dos diferenciais do bambu em relação às demais árvores está no fato de que ele, ao sofrer uma ação externa tal como a do vento ou da chuva, não permanece num estado de rigidez que bate de frente contra o impacto que recebe para aguentá-lo. Ao invés disso, ele segue o fluxo gerado e se enverga diante daquela ação, um sinal de humildade análogo à forma com a qual os japoneses se inclinam em reverência e respeito ao próximo. O bambu se comporta de tal maneira mesmo em face das mais leves brisas, mas tão logo essas ações cessem, por mais intensas que sejam, o bambu retorna ileso ao seu estado original.

 

Apoio do grupo no bambuzal

Outra característica do bambu está em seu contato com as várias árvores num bambuzal. A maioria das espécies de árvores depende inteiramente de suas próprias raízes para se manterem de pé, não importando o quão arvorejado é o local onde estão. Já os bambus naturalmente apoiam-se uns nos outros enquanto se curvam, reduzindo ainda mais os possíveis impactos de influências externas mais intensas. Com isso, pode-se fazer uma associação entre a humildade e o convívio social.

O conceito de humildade está presente na maioria das culturas humanas conhecidas, sendo uma virtude bastante destacada no próprio Cristianismo, que moldou muito da base moral e ética das civilizações do ocidente. Apesar disso, essa ideia normalmente sofre com a ambivalência pelas noções de autoconfiança e autoestima, muito ligadas ao valorizado individualismo na cultura ocidental. A filosofia tradicional japonesa prega que nossa existência está primeiramente no fato de que somos todos inter-relacionados, estando apenas em segundo lugar quem somos enquanto indivíduos. Por isso, antes que possamos fortalecer nossas próprias identidades, devemos primeiro fortalecer a compreensão do universo ao redor.

 

Ser flexível

Para que sejamos humildes, é necessário perceber nossa condição e contexto coletivo, tomando a presença do outro como parte natural e integral da vida. A humildade não apenas reforça a polidez e o respeito para com o próximo, mas é também o que permite com que possamos evoluir e aprender com nossos erros e acertos de maneira produtiva a todos os que nos cercam. É preciso humildade para compreender os pontos de vista daqueles com quem convivemos, de forma que possamos aprender com eles e coexistir harmoniosamente. Até mesmo quando nos vemos numa condição hierarquicamente superior, a humildade de procurar ajudar em vez de humilhar e aprender em vez de nos fechar é de sumo benefício, contribuindo para um ambiente mais positivo, colaborativo e próspero. Assim também são os bambus mais velhos, que com sua maior espessura servem como suporte seguro às árvores mais jovens. Naturalmente, os bambus mais velhos igualmente se apoiam uns nos outros, bem como fazem os mais novos.

Quanto mais conhecimento e experiência adquirimos, mais humildade é necessário que tenhamos. Isto acontece porque, ao preenchermos a mente com informações e conhecimento, mais difícil se torna conceber o vazio. Em outras palavras, se pensamos que já sabemos muito ou que já sabemos o suficiente, a tendência é que fiquemos cada vez mais fechados a novos conhecimentos e perspectivas que seriam úteis para nosso constante aprimoramento enquanto seres humanos e também dentro de nosso ofício. Por isso, no que diz respeito à humildade, o sábio deve ser como o bambu: inclinar-se até mesmo diante do mais tolo dos seres, podendo sempre conhecer mais. Em contrapartida, o tolo se vê incapaz de aprender com até com o mais sábio dos seres.

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